Resenha: Cinquenta Tons de Cinza

Título: Cinquenta Tons de Cinza

Autor: E L James

Editora: Intrínseca

Como escrever sobre um dos livros mais polêmicos da temporada? Lançado em pouco mais de um ano no exterior (e chegando essa semana as livrarias do Brasil), há adoradores e odiadores.

Que é um fenômeno, isto é fato. Afinal, alcançar a lista dos mais vendidos do jornal New York Times logo após o lançamento, vender 30 milhões de exemplares (conforme informações da editora no Brasil), ter os direitos de adaptação para o cinema comprados a peso de ouro, com especulações acaloradas quanto aos seus prováveis protagonistas, ter seus direitos de tradução disputados por valores milionários no Brasil e abrir um intenso debate quanto a sensualidade e feminismo foram méritos de E L James.

Não vou me ater aos detalhes de que a obra deriva de uma fanfic escrita com base em Crepúsculo (além do mais, eu não li nenhum dos livros, nem assisti quaisquer dos filmes) e que colocou sob os holofotes uma ex-executiva de TV, casada e mãe de dois filhos adolescentes.

- Relações como esta se baseiam em honestidade e confiança. – prossegue ele. – Se não confiar em mim, confiar para saber como afeto você, até onde posso ir, até onde posso levá-la, se não puder ser honesta comigo, aí realmente não podemos fazer isso.

Anastasia “Ana” Steele está para se formar e sua amiga de quarto lhe implora que vá entrevistar o benemérito da faculdade, Christian Grey para o jornal da faculdade, já que está adoentada e demorou 9 meses para conseguir um horário. A contragosto, a Srta. Steele vai ao encontro do perturbador Sr. Grey, dando início ao um relacionamento conturbado e pervertido.

Narrado em primeira pessoa, vemos somente o ponto de vista de Ana. Percebemos que ela é extremamente inocente aos seus 21 anos, com baixa auto estima, desastrada e tímida. A partir do momento que ela conhece o Sr. Grey, que aparentemente é seguro de si, extremamente encantador (chega a ser exagerada a reação das mulheres quando se deparam com ele), milionário e começa a cortejá-la, ela se depara com uma pessoa extremamente controladora e possessiva.

Para os curiosos, a escrita começa a ficar um pouco mais picante no meio no livro. E a relação BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo, Masoquismo) começa a se pincelar no livro, mas não chega a nada extremo (pelo menos do parco conhecimento que tenho).

Há várias referências atuais (como marcas de carros e eletrônicos), bem como menção aos “presentes” de Christian (ele lhe dá um Mac Book Pro, com 32 GB de Ram e 1,5 Tera de memória. Quem usa uma máquina dessas somente para emails?! Ana). Demonstração do poder de Christian? Talvez. A autora também descreve algumas músicas, as quais os fãs podem “entrar no clima”.

- Não, as ostras são o primeiro item do menu. Não preciso de afrodisíaco perto de você. Acho que sabe disso, e imagino que você tenha a mesma reação ao meu lado – diz ele simplesmente. – Então, onde estávamos?

A tradução do título acabou perdendo um pouco seu significado, já que trata das inúmeras facetas de Grey. Para mim seria mais apropriado algo como “Cinquenta Nuances de Grey”, mas o trocadilho com o nome e a cor se perderiam.

Creio que o que tem seduzido muitas mulheres a esse livro é o cortejamento, a paixão arrebatadora, o querer satisfazer o desejo do outro, o desejo em si, o fascínio perturbador que Christian exerce em Ana e a inocência de Ana que instiga a mente pervertida de Christian.

As muitas críticas são quanto a submissão (em vários sentidos) de Ana, que denegririam a imagem feminina. Acho isso um pouco radical demais, pois não sei se haveria tantos comentários se os papéis fossem invertidos.

Outras, falam da repetição constante de alguns termos como “deusa interior” ou o fato de Ana morder o lábio inferior quando está nervosa. E sim, isso às vezes acaba soando um pouco  irritante.

O mérito do livro é fazer com que muitas mulheres reflitam a respeito de sua sexualidade e que possam explorar algumas de suas fantasias ao lado de seus parceiros.

Como a autora disse em entrevista a Revista Marie Clare:

É a fantasia do primeiro amor. Se você está casada há 400 anos, como eu, é legal experimentar o primeiro amor novamente, e dá para fazer isso por meio de um livro. Há tanta fantasia nele. Tira você da rotina de lavar a louça e separar a roupa. Acho que esta é uma história de amor contemporânea mais do que um romance erótico.

Ainda sim, acho recomendável a leitura por maiores de 18 anos, pelo teor do livro.

Observações: a versão digital do livro deixou a desejar. Além da formatação ser ruim (um grande espaço branco nas laterais), não houve adaptação a tela retina do iPad, fazendo a capa e a fonte ficarem um tanto distorcidos e com resolução ruim. Creio que a versão foi feita para dispositivos menores, mas mesmo em tela de 4,5 polegadas, a capa fica destorcida.

About Marcia Murata

Advogada. Não vive sem fones de ouvido, desde a época do Walkman. Leitora compulsiva, de livros a bula de remédio. Rendeu-se atualmente ao livros eletrônicos e gostaria que as editoras brasileiras investissem mais nesse novo meio.