Resenha: O Temor do Sábio

Livro: O Temor do Sábio
Série: A Crônica do Matador do Rei
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Arqueiro

Atenção! Contém spoilers de “O Nome do Vento”!

“Lembre-se de que há três coisas que todo sábio teme: o mar na tormenta, uma noite sem luar e a ira de um homem gentil”.

Creio que a missão de resumir 960 páginas (e todo o sentimento despertado por elas) é quase épica – bem no nível da aventura costurada com maestria por Patrick Rothfuss.

O livro começa no início do segundo dia da estadia do Cronista na pousada Marco do Percurso. Depois de passar por muitos apuros, o escriba encontrou no estabelecimento dirigido por Kote e por seu fiel escudeiro Bast, não só um abrigo, como uma verdadeira fonte de histórias. Afinal, é a primeira vez que o hospedeiro resolve abrir as portas do seu passado heroico e narrar toda a sua trajetória – que, aliás, o transformou em um personagem “famoso”.

E é justamente na história de Kvothe, o Sem-Sangue, que mergulhamos ao longo deste segundo volume. Desta vez, o ritmo já é intenso logo no começo. Se em O Nome do Vento passamos por um início mais lento, repleto de contextualizações e explicações, em O Temor do Sábio nos deparamos mais uma vez com a rotina do protagonista na Universidade: as aulas de simpatia avançada, o trabalho na ficiaria, o desejo de voltar ao Arquivo e, é claro, as visitas a Imre, o vilarejo vizinho da escola e onde a busca incessante por pelo menos um vislumbre de Denna continua.

Porém, Kvothe ainda tem que lidar com as consequências nada agradáveis de suas ações passadas… Depois de mais um período conturbado, ele é aconselhado a deixar a Universidade por um tempo (para esperar a “poeira baixar”) e resolve se aventurar pelas terras longínquas de Severen, a casa do maer Alveron. Ali o personagem apende a jogar o jogo da corte, convivendo diretamente com pessoas que estão muito longe do seu círculo usual de amizades.

Mas nada é tão fácil na vida do herói… As regalias da vida na corte logo são interrompidas por mais uma aventura, que terá repercussões bastante inusitadas, cheia de mitos e novos personagens.

Sim. Kvothe está de volta em sua melhor forma! Confesso que estava com saudades da escrita poética de Patrick Rothfuss e do universo encantador criado pelo autor. Aliás, o que mais me chama atenção nessa série – além do carisma do protagonista – é justamente a composição de todos os elementos que permeiam a história. Os cenários, a forma como a magia é introduzida – o que a torna praticamente factível (parece que qualquer um de nós é capaz de criar uma conexão entre dois pontos e realizar uma simpatia!) – e, principalmente, os contos e lendas que são passados de geração em geração. Quem não gostaria de ser criado ao som das histórias do “Latoeiro Curtumeiro”, ou sonhar com o menino que roubou a lua?

Outro fator que também me deixou bastante curiosa é toda a cultura apresentada em Ademre – desde a Lethani, sua filosofia de vida, até os movimentos da Ketana. É algo tão diferente e inovador, que no princípio é até um pouco difícil de absorver. Mas não deixa de ser fascinante!

A verdade é que “O Temor do Sábio” é um livro bastante rico – tanto no enredo, quanto nos mínimos detalhes. Ponto para o trabalho da tradutora, que topou o desafio de traduzir dezenas de músicas, poemas e contos e o fez muito bem! Mas um único “porém” é também justamente a quantidade de detalhes. Na preocupação de apresentar minuciosamente todos os elementos, o autor acabou se estendendo um pouco em algumas cenas específicas, o que deixou o ritmo um tanto quanto lento no meio da história, mas nada que prejudique muito a leitura.

Agora só falta esperar pelo terceiro (e último?) dia da narração da crônica do matador do rei – e torcer para que o autor não demore muito para nos apresentar o desfecho da história de Kvothe. O terceiro volume nos promete muitas respostas, como o mistério por trás da transformação do protagonista em um pacato hospedeiro, a descoberta do que ele guarda no baú ao pé da cama e a conclusão do silêncio em três partes. Haja coração!

About sabrina

Paulistana, geminiana, curiosa e irrequieta. Prefere a cidade ao campo, mas o campo à praia. Gosta de música, tecnologia, livros e cappuccino. Na sua bolsa nunca faltam o iPod, o celular e, é claro, a leitura do momento.