Resenha: Fome

Livro: Fome
Série: Gone
Autor: Michael Grant
Editora: Galera Record

Atenção! Pode conter spoilers de Gone – O Mundo Termina Aqui!

Imagine um mundo sem adultos. Sem influências paternas ou maternas, sem médicos, bombeiros, policiais, vendedores… Uma terra praticamente sem lei. Ou melhor, com algumas leis criadas por crianças. Este é o universo de Fome, o segundo livro da série Gone, do autor Michael Grant.

Se no primeiro livro já havíamos nos surpreendido com as atitudes dos personagens, neste volume a situação está ainda pior. Como se o “simples” fato de toda a sociedade ter sido reescrita não fosse o suficiente, agora todos passam fome. Ok, já era de se imaginar que em algum momento a situação fosse chegar a esse ponto já que, acostumados a deixar que os pais resolvessem os problemas, as crianças não pensaram em criar uma forma de subsistência logo no início da crise (e quem pode culpá-los?), mas acompanhar o sofrimento dos personagens ao longo do livro dá uma certa agonia (e, é claro, fome).

Ao longo desse volume, Sam Tample começa a sentir na pele o peso de ser o responsável por todas as crianças de Praia Perdida. Se o cargo de prefeito já é pesado para muitos adultos, imaginem o que isso pode fazer com um simples garoto de 15 anos!? O sufoco fica ainda pior quando as crianças começam a culpá-lo por todo e qualquer conflito – seja pelo problema da fome em si ou até mesmo por brigas menores, como a discussão entre irmãos. E a situação só se agrava com a disseminação de grupos radicais que são completamente contrários à existência das “aberrações”, ou melhor, das pessoas que acabaram desenvolvendo poderes especiais após do surgimento do LGAR.

Somado todos esses problemas, também temos o “lado inimigo”, que é o grupo da Academia Coates. Depois de quase enlouquecer ao se encontrar com a Escuridão, Caine está de volta com planos para desbancar de vez o irmão Sam do comando da cidade. Para isso, ele conta com a ajuda de Drake, mais sádico do que nunca e de Diana, sua fiel escudeira. Porém, a sanidade do garoto é bastante questionável… Será que ele é responsável pelos próprios atos, ou será que há algo mais por trás de tudo?

Isso, sem falar na sombra que espreita todas as mentes de Praia Perdida: a Escuridão. Se em “Gone” somos apresentadas apenas a uma faceta dessa terrível presença, em “Fome” ela está… bem, mais faminta do que nunca – no sentido literal da palavra – e desesperada para deixar o seu esconderijo.

Ao longo do livro, Michael Grant destrincha com maestria todos os elementos que conhecemos no primeiro volume. Se as pessoas são capazes de fazer as coisas mais terríveis por causa do medo, o quanto isso pode piorar por causa da fome? Confesso que a obra chegou a me dar arrepios em alguns momentos… Afinal, o autor não poupa os leitores das cenas de violência e nem pisa em ovos ao descrever algumas crueldades.

É. Esta é uma leitura bastante incômoda. E não porque o texto é desagradável, muito pelo contrário! Aliás, acredito que Grant sabe entrar como ninguém na mente de uma criança e apresentar perfeitamente os seus medos e receios. O livro incomoda porque nos faz pensar o que faríamos se por acaso nos encontrássemos em uma situação extrema como essa. Será que podemos condenar alguém que é capaz de fazer qualquer coisa para sobreviver? O que você faria?

Só nos basta esperar por tempos melhores em Lies, o terceiro volume da série, ainda sem data de lançamento no Brasil. Mas, conhecendo o autor… Preparem-se para mais desafios vindo por aí!

About Marcia Murata

Advogada. Não vive sem fones de ouvido, desde a época do Walkman. Leitora compulsiva, de livros a bula de remédio. Rendeu-se atualmente ao livros eletrônicos e gostaria que as editoras brasileiras investissem mais nesse novo meio.