Resenha: Especiais

Livro: Especiais

Série: Feios

Autor: Scott Westerfeld

Editora: Galera Record

Deixe o preconceito de lado e não fuja da simples imagem de duas garotas que sonham em ser bonitas ou perfeitas, pois, essa série de livros vai muito além disso. Scott Westterfeld conclui sua série de ficção científica de forma agradável e, novamente, coloca em discussão os estereótipos da sociedade em que vivemos, transportando tal temática sobre “sociedade perfeita” em um mundo pós-apocalíptico, em que uma jovem menina surge como a defensora de pensamentos outrora desgastados pela mesma sociedade “extinta”.

Caso você não tenha lido Feios e Perfeitos, essa resenha contém spoilers e pode atrapalhar sua leitura, com revelações importantes.

O terceiro volume da série Feios, com o nome de Especiais, nos leva para dois meses após o final do segundo livro, Perfeitos, em que agora não temos mais uma Tally Youngblood feia ou uma perfeita avoada, mas sim uma garota convertida em um ser humano perfeito: uma Especial. Melhor que isso, Tally, agora sob o comando de Shay, formam uma equipe de Cortadores, seres Especiais modificados por cirurgias para terem seus corpos mais do que perfeitos, a fim de assegurarem a paz de Nova Perfeição, a “cidade perfeita”.

Dra. Cable, no comando da Circunstâncias Espeiciais, ainda continua na imagem da vilã, que corrompe o cérebro dos jovens ao prometer uma vida perfeita e borbulhante, tal sentimentos que fizeram Tally se aventurar ao lado de Zane, em busca de David e a Nova Fumaça, porém que também causou em Shay e seu grupo a vontade de se cortarem para chegarem ao mesmo estado de lucidez, que nos acompanhou toda a narrativa do segundo volume da série.

A história evolui, da mesma forma que os seus personagens. Se no início tinhamos uma Tally fissurada pela perfeição, agora temos uma perfeita constantemente assombrada pelo coração. O autor nos levou pelo caminho do desejo, da racionalidade e agora o do coração. Zane se torna o gatilho e motivador de Tally confrontar os seus pensamentos de Especial, ouvindo o seu coração, afinal seu namorado confronta as suas decisões colocando em discussão o que ela realmente acredita ou no que realmente foi forçada a acreditar.

Antigos personagens reaparecem, como Andrew Simpson Smith, e novos personagens surgem para dar fôlego à história. Da mesma forma como Westerfeld nos leva até Diego, um local livre e que aceita os fugitivos que negam a necessidade de cirurgias, porém que logo se mostram passíveis da antiga sociedade que a tudo destruía durante sua evolução e crescimento. Uma nova forma de o autor nos mostrar outra forma de vida e criticar a maneira como uma sociedade se expande; se antes passamos por uma sociedade perfeita, sendo controlada mentalmente, e depois conhecendo uma colônia primitiva controlada como ratos de laboratório, o autor agora nos leva a Diego e mostra que a soberania de uns pode resultar na catástrofe de outros, ou seja, uma forma de nos alertar sobre os avanços tecnológicos e a causa da evolução humana.

Depois de descobrirmos que pílulas de nanoestruturas estão sendo fabricadas de forma massiva, o livre arbítrio surge em Tally ao conhecermos uma nova cura, ou como o autor revela, uma forma de “desespecializar” uma pessoa. Reverter os danos mentais causados pela Dra. Cable ao transformar os Perfeitos em Especiais. Tally não escolhe por essa “cura”, afinal, da mesma forma como Perfeita, basta uma maneira de clarear os pensamentos para o cérebro voltar ao normal aos poucos. A jovem protagonista cresce formidavelmente ao assumir o seu papel de “Messias da nova sociedade” ao querer tomar conhecimento e deixar a ignorância para trás, indo em busca da resposta dos males que os jovens sofrem ao passar por qualquer uma das cirurgias existentes.

Temos a perda de Zane durante o terceiro livro, além de amizades serem colocadas à prova. Se só as amizades fossem o ponto central do livro, as coisas seriam mais fáceis para Tally e mais favoráveis para Dra. Cable, porém David surge como o grande fator importante que daria à nossa protagonista o empurrão que faltava para ela poder pensar de forma clara e já não ser mais uma Especial, ao menos por completo. O final do livro nos leva ao Novo Sistema e o epicentro do confronto de idéias e não da revolução; Scott Westerfeld evita abordar o confronto de forma física, mas coloca de forma conceitual, por meio dos ideais e pensamentos entre os jovens Tally, Shay e David. As duas amigas que iniciaram essa história agora estão, finalmente, ao lado do mesmo ideal e contra Dra. Cable e as Circustâncias Especiais.

A Doutora, que por fim acaba abusando dos seus ideais e a busca pela perfeição totalitária não se precavendo, afinal, de tanto arriscar o erro se torna iminente. A confiança e inteligência da doutora, uma metáfora para toda a tecnologia e avanço humano, fizeram com que um único cuidado não fosse tomado: o ser humano não é uma máquina e possui sentimentos.  Num dos pontos mais importantes da história vemos que ninguém está livre das consequências de seus atos, ou seja, a fria doutora acabou sendo alvo dos seus próprios experimentos, num final triste para um ser humano.

A leitura desse terceiro volume se torna mais frenética e rápida, pois, o narrador, que acompanha Tally, que agora se torna uma pessoa bela e mortal. Acompanhando os três livros somos levados à crítica social de alienação e vícios, além da futilidade pela qual passamos e como ela se dá por um meio osmótico, ao nos acostumarmos e aceitarmos o que a sociedade impõe como lei, hábito, costume, cultura, paradigma, estereótipo, etc. Chame como quiser, o certo é que nos vemos presos dentro de uma bolha diariamente correndo de um lado para o outro, dentro de um sistema que nem ao menos leva em consideração se é o melhor ou mais correto para você ou um grupo determinado de pessoas. Os livros mostram que a passividade é leal à decadência, seja ela mental ou física, porém está na mente das pessoas, novas e livres de tudo isso, que até mesmo a superioridade do mundo perfeito em que Tally vive pode ser abalada por um grupo, seja ele por ser desprezado ou com ideais diferenciados.

O encerramento da série não se trata apenas da personagem ou do seu manifesto que ela envia como resposta, de como ou onde ela viverá. David ou Shay? Qual é a escolha de Tally também não é o mais importante para ficarmos contentes com o final da história e o famoso “viveram felizes para sempre”. Scott Westerfeld iniciou a forma de criticar a humanidade de maneira sutil, por meio da visão “inocente” de Tally, porém nos mostrou que a série tem como foco principal a compreensão e evolução do leitor, ou melhor, se a história foi capaz de te levar do estado de medíocre ao sagaz, passando pelo estado de borbulhante, pois, somente assim para você olhar para o mundo, além de você, e perceber o quanto você ainda é medíocre e insiste em conviver com os especiais que mantém o seu mundo.

Meu conselho para quem se aventurou pela série Feios: leia Espeicias, mas não apenas leia e sim compreenda o que Scott Westerfeld colocou como uma série de ficção científica.

About Rafael Nery

1) Geminiano e Nerd 2) Adoro usar xadrez 3) Amante de quadrinhos, games, filmes e desenhos 4) Estudioso da cultura japonesa 5) Viciado em literatura fantástica