Resenha: Feios

Livro: Feios
Série: Feios
Autor: Scott Westerfeld
Editora: Record

[SINOPSE: Tally está prestes a completar 16 anos, e mal pode esperar. Não para dar uma grande festa, mas sim para se tornar perfeita. No mundo de Tally, fazer 16 anos significa passar por uma operação que a transformará de “feia” em um ser incrivelmente belo e perfeito, e lhe dará passe livre para uma vida de glamour, festas e diversão, onde seu único trabalho é aproveitar muito. Mas Shay, uma das amigas de Tally, não está tão ansiosa assim: prefere se arriscar fora dos limites da cidade. Quando Shay desaparece, Tally vai conhecer um lado totalmente diferente desse mundo perfeito – e, acredite, não é nada bonito.]
Scott Westerfeld propõe uma obra única. “Em um mundo de extrema perfeição, ser normal é feio”; dessa forma o autor inicia sua trilogia com o título “Feios”, publicado no Brasil pela Editora Record. De início tive uma certa aversão ao livro por causa de sua capa e título, afinal algo com um título como Feios poderia me trazer uma leitura sobre algo totalmente fútil, afinal beleza é um assunto que não me interessa.

Engano meu e totalmente surpreendido após receber o livro, esse título é uma obra de fantástica e futurista muito bem construída a apartir do caos e da maior preocupação dos seres humanos: A eterna busca pela perfeição. Westerfeld constrói sua história em um futuro no qual os leitores são apresentados à um Planeta Terra devastado pelo caos e por uma praga inesperada (com um quê de inovação). Acompanhamos as aventuras de Tally Youngblood, a personagem principal da história, que está prestes a completar 16 anos e se tornar uma perfeita; isso quer dizer que ela deixará a Vila Feia se mudar para Nova Perfeição, uma das locações que visitamos durante nossa leitura.

É em um universo dividido entre feios e perfeitos que vamos passar todas as páginas do livro, cuja perfeição se refere à igualdade entre todos os seres humanos e a feiura se torna uma forma de rotular as pessoas livres e diferentes entre si, sendo que no início só vemos essa diferença de forma estética, tornando-se mais profunda, a cada capítulo, tornando-se suficiente a ponto de se mostrar como forma pensante entre seres livres e seres controlados por um sistema. Westerfeld nos entrega uma metáfora para o nosso dia-a-dia, afinal, troque a palavra “Perfeição” ou “Beleza”, por adjetivos que remetam à sexo, religião e cor para perceber a existência de alguém se achando superior aos outros e se mostrando forte o suficiente para impor uma forma de pensar, viver ou até mesmo existir.

A partir da frustração ao reencontrar seu amigo de infância, Peris, que agora se tornara um Perfeito, Tally conhece Shay, uma rebelde e a causa da evolução que nossa querida personagem sofrerá. Mostrando para Tally que o mundo não se resume somente à Vila Feia e seus locais adjacentes, Shay leva sua pequena amiga feia para as Ruínas de Ferrugem, um dos locais que se mostram como cemitério da antiga civilização, a dos Pré-Enfumaçados. Naquele lugar sombrio revela sobre a existência da Fumaça e de David, um lugar livre da perfeição e do controle absoluto de poderosos. Estes que mais tardes conhecemos como os Especiais, pessoas que trabalham para o escritório da Condições Especiais e mantém a ordem e controlam os perfeitos, em suas vidinhas medíocres e utópicas, cheias de festas e beleza.

Foi com a partida de Shay para a Fumaça, após discutir com sua amiga Tally, que a pequena feia se vê obrigada pela Dra. Cable, chefe da Condições Espeiciais, a ir atrás da Fumaça como espiã e revelar onde os rebeldes se reúnem e ameaçam a ditadura da beleza imposta para os perfeitos. A partir desse ponto conhecemos David e, após a aventura solo de Tally, passamos a gostar mais da protagonista, vendo que ela realmente era mais uma menina de 16 anos que não via a hora de receber sua cirurgia e se tornar uma perfeita, porém sua convivência com David e o grupo rebelde revelam que a Natureza e a liberdade, em no vilarejo da Fumaça, pode ser muito mais do que já ouviu falar, durante sua vida em Vila Feia.

Durante quase metade do livro vemos o conflito interno entre promessas e conquistas, livre arbítrio e destino, além da evolução de Tally como alguém que pode crescer sozinha e não simplesmente fazer parte de um sistema cheio de iguais, ou seja, ela vislumbra a chance que possui de fazer algo a mais em sua vida, alguma coisa que possa melhorar e ajudar o próximo. Uma sociedade livre que mostra à pequena feia que a vida não se resume em festas e passividades, aceitando tudo aquilo que é dado, em troca de controle.

Com uma reviravolta no final da história, cheia de emoção e aventura, contada em uma narrativa alucinante, um importante segredo é revelado pelos pais de David, que nos faz olhar a história dos Perfeitos de forma diferente. A partir de tal revelação não conseguimos parar de ler até chegar ao final do livro, para poder descobrir que toda ação possui uma reação, mas nada está perdido, pois temos a liberdade de tomar nossas próprias decisões em busca dos que desejamos, neste caso Tally não deseja mais sua perfeição, após completar 16 anos, mas algo muito maior que isso.

“Feios” é um livro excelente, uma obra eletrizante e capaz de nos segurar até a última página do livro; metaforicamente vemos citações de nosso dia-a-dia, além de vislumbrar as possíveis escolhas que temos, mas que muitas vezes tornamos a cometer erros, em busca da nossa perfeição. Afinal, todos nós já fomos uma Tally de 16 anos, porém será que teríamos a mesma coragem e amor que ela possui?

About Rafael Nery

1) Geminiano e Nerd 2) Adoro usar xadrez 3) Amante de quadrinhos, games, filmes e desenhos 4) Estudioso da cultura japonesa 5) Viciado em literatura fantástica