Resenha: Perfeitos

Livro: Perfeitos
Série: Feios
Autor: Scott Westerfeld
Editora: Record

O livro Perfeitos, segundo volume da série Feios, escrito por Scott Westerfeld, foi enviado para nós resenharmos após a resenha que fizemos e os elogios despendidos ao livro, pois, para a minha surpresa, o primeiro volume é um ótimo livro e proporciona ótimas horas de leitura; sem decepcionar e mantendo o mesmo nível do anterior, Perfeitos se torna uma grande continuação para uma série que vem conquistando cada vez mais leitores.

Começamos, este volume, após os acontecimentos finais do primeiro livro, pois, agora Tally Youngblood é uma perfeita, afinal se entregou para as Circustâncias Especiais para salvar sua amiga Shay. O que presenciamos é um início de livro que nos mostra como seria ler uma série fútil, caso o autor resolvesse simplesmente retratar a juventude de uma garota que sonhava em se tornar bonita para viver de badalação e ressacas após noites de bebedeiras. A Tally que conhecemos some para dar lugar à uma garota vazia, porém bonita, popular e que ainda se vangloria de seus “crimes” anteriores.

Crimes, ou fatos passados, é a forma como se referem ao passado de rebeldia de Tally ao lado de David e os Enfumaçados, porém após sua cirurgia, Tally tem seu passado reduzido a borrões, porém sua tentativa para se tornar uma Crim, e fazer parte de um grupo de “arruaceiros”, começa a despertar um lado de clareza, em nossa nova perfeita. É, durante a festa na Mansão Valentino, que Tally se depara com Croy, um dos Esfumaçados, perseguindo-a com a fantasia de um Especial; sua angústia e medo deixam-na em estado Borbulhante (palavra usada em excesso nesse segundo livro), que declara o estado de êxtase da pessoa, fazendo com que ela clareie a mente e deixe de ser perfeita momentaneamente.

Usando e abusando de alegorias muito bem colocadas, Scott Westerfeld nos mostra que fazemos parte de um sistema controlador e que ao nos aventurarmos conseguimos pensar de forma clara e sem nos encaixarmos em uma estrutura social, manipulada por nossos “superiores”. Tally consegue se recuperar das lesões causadas pela cirurgia e que transforma os jovens em pessoas do “bem”, tirando-lhes a dúvida e os sentimentos negativos, criando, assim, a sociedade perfeita para se morar. Por mais indiretas que o autor dê ao fazer referências ao mundo atual, nota-se um cuidado ao não tender para uma opinião pessoal, construíndo uma narrativa concisa e uniforme, mostrando um ótimo trabalho como autor literário e crítico.

Mantendo o rítmo alucinado, com os problemas e desventuras da protagonista, dessa vez vemos o esforço de Tally para voltar a ser uma Enfumaçada, recuperar David e libertar a todos, passando por acidentes pela pista de patinação flutuante, visita à aldeia dos caçadores, além de muitos contratempos. Inclue-se, na lista, a revolta de Shay e o surgimento dos caçadores, afinal o estado borbulhante não é prometido somente por Tally, a partir do momento que Shay consegue descobrir como se sentir diferente e ser uma perfeita diferente.

Pouco vemos de David e os Enfumaçados, pois, Zane surge para apagar até mesmo a existência de Peris; o novo “namoradinho” de Tally é quem desconfia de uma possível cura e segue durante todo o segundo volume ao lado de Tally, porém uma reviravolta no final do livro nos deixa apreensivos, pois, além de ter se encontrado com David e vê-lo partir novamente, a “Sangue Novo” (como Andrew e os caçadores chamam Tally) se vê em uma missão difícil causada por uma traição e uma nova descoberta. Para quem imaginou que a Dra. Cable tinha sumido, não, ela retorna e cada vez pior em suas maldades.

Fica clara a mensagem do autor ao se referir à nossa sociedade e ao sistema manipulador que nos mantém alinhados em nosso dia-a-dia; com a evolução de Tally e o aumento de suas responsabilidades, Scott Westerfeld consegue endurecer o seu texto e sua narrativa, deixando o livro mais sério, a ponto de usar trechos como: “Todas as pessoas eram programadas de acordo com o lugar em que nasciam, confinadas por suas crenças. Mas era preciso ao menos tentar desenvolver uma mentalidade própria. Do contrário, você podia acabar vivendo numa reserva, adorando um bando de deuses falsos”. A metáfora do século XXI em seu livro é clara, assim como conflitos e comportamentos humanos responsáveis por gerar insatisfação na sociedade.

Após ler os dois volumes da série Feios, utilize seu tempo para refletir e troque certos nomes para algo como religião e raça, ou até mesmo sequências de fatos que podem ser vistas como “atuais”, a partir de então, você se sentirá na pele de Tally. Nesse segundo volume, ao terminarmos o último capítulo e nos depararmos com o inesperado, ficamos borbulhantes e teremos que nos manter assim até o lançamento do terceiro volume, enquanto isso podemos ver as Tallys, Zanes, Shays, Davids e Dra. Cables que existem por aí no mundo.

About Rafael Nery

1) Geminiano e Nerd 2) Adoro usar xadrez 3) Amante de quadrinhos, games, filmes e desenhos 4) Estudioso da cultura japonesa 5) Viciado em literatura fantástica